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Ignacy Sachs e o ecodesenvolvimento, por Bresser Pereira fevereiro 20, 2008

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Folha de São Paulo – 20/02/2008

Economista do ecodesenvolvimento

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Ignacy Sachs, um grande intelectual, rejeita a torre de marfim da universidade e mergulha na prática, sempre em defesa dos seus ideais

“NEM PENSAR em paralisar o crescimento enquanto houver pobres e desigualdades sociais gritantes; mas é necessário que esse crescimento mude quanto às suas formas de ser e principalmente quanto à repartição dos seus frutos. Precisamos de um outro crescimento para um outro desenvolvimento.” Retiro essa frase da autobiografia de Ignacy Sachs, que acaba de ser publicada na França (“La Troisième Rive”, Bourin Éditeur) um pouco depois de haver ele comemorado 80 anos. Quem é Ignacy Sachs? A meu ver -e no de muitos-, é o principal economista mundial do ecodesenvolvimento. Conjuntamente com Maurice Strong e Marc Nerfin, ajudou a definir a declaração final da Conferência das Nações Unidas de Estocolmo, de 1972, a partir da qual a proteção do ambiente se transformou em problema e objetivo mundial.
Uma outra forma de definir Sachs é dizer que é um grande intelectual, que rejeita a torre de marfim da universidade -da Ecole d’Hautes Etudes en Sciences Sociales, onde ensina- e mergulha na prática. Mas o faz como o Dom Quixote-Sancho Pança do nosso tempo: sempre na defesa de seus ideais de liberdade, justiça social e defesa do meio ambiente. Sempre utópico, portanto, mas, também, sempre pragmático, sempre envolvido em definir e participar de projetos de interesse econômico, social e ambiental que fortaleçam os pobres, os camponeses principalmente, ou encaminhem a solução dos grandes problemas globais, como o do efeito estufa.
Sua nacionalidade? Eu diria que é tripla: polonesa, brasileira e francesa.
Polonesa porque Sachs nasceu na Polônia, fugiu com seus pais em 1939, retornou em 1953, foi discípulo do grande economista Michal Kalecki, e da Polônia novamente foi para o exílio em 1968, quando o anti-semitismo voltara a tomar conta do seu país de nascença. Brasileira porque viveu aqui 14 anos, aqui estudou, porque ainda tem uma residência e família no Brasil e porque transformou o Brasil e seu governo, independente do partido que esteja no poder, no principal objeto de seus conselhos e trabalhos.
Francesa porque é professor da mais prestigiosa escola de ciências sociais da França, onde fundou o Centro de Estudos do Brasil Contemporâneo.
Sachs faz parte da segunda geração dos economistas da Teoria do Desenvolvimento. A primeira foi a de Rosenstein-Rodan, Hans Singer, Gunar Myrdal e Raul Prebisch; a segunda, de Celso Furtado, Albert Hirschman e dele próprio. Conheço Inácio, como se apresenta no Brasil, há muito, mas nos últimos anos, desde que passei a ser professor associado da EHESS, onde dou anualmente um curso de um mês, nos tornamos amigos. Economista ilustre, ele, entretanto, jamais perde de vista os aspectos éticos do desenvolvimento. Para ele, não há ciência social pura. “As ciências sociais têm principalmente um papel heurístico [de nos ajudar a pensar].
Elas servem para fazer as boas perguntas e alimentar o debate social. As respostas, elas vêm da prática.”
Sua lista de publicações é enorme.
Publicou livros originalmente escritos em polonês, francês, português e inglês. Não aceitou as ofertas de cargos que recebeu dentro do sistema das Nações Unidas, mas adotou o conselho de seu mestre, Kalecki, quando saiu da Polônia pela segunda vez: “Se puder, seja consultor. É absolutamente necessário adquirir uma experiência prática”.
Cada vez que o encontro, ele tem novas histórias a contar. Algumas se referem a seus projetos em defesa dos pequenos, como quando assessorou o Sebrae a desenvolver um projeto de produção do dendê em unidades familiares combinadas com usinas empresariais de processamento. Outras vezes, está dando assessoria ao governo brasileiro ou às Nações Unidas sobre o desenvolvimento includente e auto-sustentável ou sobre o aproveitamento da biomassa para a produção de energia auto-renovável. Escreve, então, documentos. O último que tenho em mãos, feito para a Unctad das Nações Unidas, denomina-se “The biofuels controversy”, onde ele não vê conflito entre a segurança energética e a alimentar, desde que a produção de biomassa para a energia seja bem regulada pelo Estado, tendo como critérios não apenas custo, mas também interesse social e proteção ambiental.
Ignacy Sachs e sua companheira de toda a vida, Viola, especializada em letras anglo-americanas, são duas pessoas admiráveis. O livro autobiográfico originou-se de uma série de entrevistas, que duraram quase um ano, a Thierry Paquot. Mas ao final este ficou tão impressionado com a coerência das respostas, que preferiu escrever o prefácio, retirar suas perguntas e deixar o belo texto correr. Também ele se deixou encantar por essa grande figura humana e intelectual que é Ignacy Sachs.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 73, professor emérito da FGV-SP, é colunista do caderno Dinheiro. Foi ministro da Ciência e Tecnologia (governo FHC) e da Fazenda (governo Sarney).

O lenga lenga da discusssão ambiental fevereiro 19, 2008

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Abaixo texto de Marcelo Coelho que saiu na Folha de São Paulo e que também reflete um pouco do que penso sobre o assunto.

É um retrocesso culpar apenas um ministério pelo desastre que se prenuncia
Muita gente estranhou o fato de o desmatamento na Amazônia não ter sido tratado aqui nos últimos quatro meses. Justamente agora que o desmate se encontra em aceleração e o governo supostamente cogita uma mal-explicada anistia para devastadores?

É fadiga, gente. São 20 anos lendo e escrevendo sobre um debate que se arrasta a passos infinitesimais. Sim, há avanços -mais estudos, mais dados, algumas iniciativas sensatas do governo federal (o que não quer dizer que sejam suficientes).

Mas há também retrocessos. O mais grave, talvez, seja ver tanta gente -de Lula a ONGs- responsabilizando (só) o Ministério do Meio Ambiente pelo desastre que se prenuncia.

Como se ele pudesse de fato fazer alguma coisa diante do trator exportador de commodities. Dá engulhos ouvir Kátia Abreu (DEM-TO) recomendar a Marina Silva que se demita por “negligência, incompetência ou traição”. Justo a ruralista do grupelho de senadores para desautorizar autuações de trabalho similar à escravidão na Pagrisa, plantação de cana em plena Amazônia…

Assim caminha no Brasil -com a qualidade de bate-boca em porta de ginásio- a discussão sobre temas complexos. Quer mais? Tente acompanhar o Fla-Flu interminável dos transgênicos.

Na semana que terminou, mais um passo. Parece definitivo: o Conselho Nacional de Biossegurança (instância máxima, com 11 ministros) deu aval para uma decisão anterior da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) liberando plantio de duas variedades de milho modificado. Mas gente da Anvisa, do Ibama e de ONGs já ensaia novas exigências, recursos, processos…

Ninguém agüenta mais essa lenga-lenga de dez anos, que há muito já se descolou de um debate substantivo e maduro, capaz de avançar com base em informações empíricas. E não só por responsabilidade dos adversários dos transgênicos, note bem, que bem ou mal garantiram um mínimo de discussão pública sobre a questão.

O tema está confinado dentro de duas molduras estanques e mutuamente excludentes. De um lado, a retórica que identifica transgenia com biotecnologia, biotecnologia com ciência e ciência com progresso da humanidade. De outro, a que elege a transgenia como antítese e nêmese da agroecologia, da agricultura familiar e de um anacrônico ideário campesino-antiimperialista.

Toda a dificuldade reside em que a maioria daqueles que se pronunciam sobre a questão termina por fazê-lo optando por um dos lados, o que só perpetua a irresolução. Existem, claro, alguns quixotes independentes por aí. Gente que escreve artigos e livros que ninguém lê.

Apesar da fadiga, vai aqui recomendado um livrinho recente, bem fácil de ler: “Transgênicos, Sementes da Discórdia” (Editora Senac, 171 págs., R$ 35). É uma coletânea de ensaios organizada pelo economista José Eli da Veiga, quixote profissional.

São três textos: um a favor (dos agroeconomistas José Maria da Silveira e Antonio Marcio Buainain), um contra (do agrônomo Gabriel Fernandes) e um interpretativo (do sociólogo Ricardo Abramovay).

Leitura indispensável, sobretudo para gente que ainda acredita em manter a discussão numa camisa-de-força “técnica”, que restrinja “emoções”. Conclui Abramovay: “Os processos democráticos pelos quais as escolhas tecnológicas, cada vez mais, são feitas pertencem ao interior mesmo da atividade científica”.

Vale para os transgênicos e vale para o uso da biodiversidade amazônica. Também para a pesquisa com embriões e animais, energia nuclear, mudança climática… Vamos crescer, gente?

Marcelo Leite é autor de “Promessas do Genoma” (Editora da Unesp, 2007) e de “Clones Demais” e “O Resgate das Cobaias”, da série de ficção infanto-juvenil Ciência em Dia (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (http://www.cienciaemdia.zip.net). E-mail: cienciaemdia@uol.com.br. Artigo publicado na “Folha de SP”

Mudança Climática e Ação fevereiro 11, 2008

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Abaixo dois links para vídeos que abordam questões do confronto entre “céticos” e as teses do IPCC. O primeiro “How it all ends” é uma síntese e o segundo é uma resposta as críticas e traz assuntos como incerteza, risco e ciência. Vale a pena.

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